Lidar com a
brevidade do tempo não é muito natural para os jovens. Quando um jovem se
depara com a questão da morte ou de como a vida é breve e passageira,
normalmente ele entra em desespero. Afinal, pensar no término da vida quando se
está no início dela não é uma tarefa fácil.
Nesse último
mês comecei um trabalho como Cuidadora de
Idosos, até por isso que dei uma sumida daqui. Não por falta de assunto,
pois minha mente está fervilhando de ideias, mas por falta de tempo mesmo. Que
interessante e rica é essa função! Estou aprendendo muito como pessoa,
psicóloga e ser humano. O mais legal é que iniciei esse tipo de trabalho com
minha própria avó, uma oportunidade única de cuidar dela e de conhecer de perto
uma história de vida que não conhecia com tantos detalhes e significados.
Pra vocês se
situarem um pouco em relação à vida da minha avozinha linda, ela tem 86 anos, 5
filhos e 3 netos e é natural de uma cidadezinha do interior de Alagoas chamada Rio
Largo. Foi para Recife para trabalhar em um hospital como enfermeira parteira, conheceu meu avô e se casou. Se mudou para o Rio de Janeiro e foi muito feliz em seu casamento e com seus filhos, sempre muito amada, alegre, de bem com a vida, falante, educada,
espiritualizada e ativa. Sua casa vivia e vive cheia de gente, constantemente
sendo visitada pela família. Nunca faltou amor e companheirismo entre nós.
Somos uma típica família de descendência italiana, gostamos de estar juntos,
somos alegres, festeiros, falamos alto, nos amamos e expressamos nosso amor de
uma forma muito afetiva e intensa! Rs Em nossas reuniões constantemente um ou
outro pede a palavra e fala abertamente sobre seus sentimentos, suas lutas, vitórias e oramos uns pelos outros. Coisa linda, minha família é meu tesouro e
orgulho maior.
Minha avó
Zeza sofreu grandes perdas na vida, a primeira aos oito anos quando perdeu seu
pai e mãe e depois quando adulta perdeu seu marido, meu avô, há 20 anos. Ela
tem problemas de pulmão desde que se entende por gente e eventualmente piora da
bronquite asmática e fica internada. Alguns anos atrás ela sofreu pequenos AVC’s
e falta de ar no cérebro, o que ocasionou um quadro de demência. Hoje não tem
plena consciência de si e dos eventos externos, sofre de alucinações e
delírios, precisa de cuidados constantes e não sai muito de casa. Tem perda de
memória recente, porém a maioria das memórias de longo prazo estão preservadas.
Passar um
tempo com um idoso com tamanha vitalidade é se inundar de histórias e
recordações do passado que se tornam tão reais com a doença que muitas vezes
são misturadas, fazendo parte de delírios que unem realidade e fantasia. Porém,
em seus melhores dias, ao me sentar no sofá com ela, pude apreciar tanta
sabedoria e beleza em seus relatos. Uma vida dedicada ao amor. Primeiro aos
mais pobres quando trabalhava no hospital e ajudava os que não
tinham condições, e posteriormente uma vida de entrega e sacrifícios pela sua
família, criando seus cinco filhos com muita dificuldade até meu avô se
estabilizar e alcançar sucesso como músico contrabaixista da Orquestra
Sinfônica Brasileira. Ele tocou com os melhores, como Baden Powell, Vinicius de Moraes,
Tom Jobim, Elis Regina, Frank Sinatra e outros, no Brasil e no exterior. Meu
avô foi um grande músico e homem, valente e talentoso.
Como uma boa
nordestina que é, também possui características de personalidade forte. É exigente com sua casa, gosta de tudo arrumado,
limpo, com flores nas mesas, reclama se algo não está do jeito que ela quer, é pragmática com seus horários de alimentação e se vê algum comportamento que lhe
parece ruim, chama a atenção. Sempre zelosa e cuidadosa com seu lar. Gosta de
claridade, adora descer no play pra pegar um sol nos dias quentes, odeia o
inverno, pois o frio e a umidade muitas vezes a deixa doentinha. Reconhece sempre a presença de Deus na
natureza - já a presenciei na janela falando sobre flores, pássaros, árvores,
sol, do quanto a vida é linda e deve ser vivida apesar dos sofrimentos. É
incrível que mesmo em seus delírios ela consiga fazer e viver poesia! Gosta de
cantar e volta e meia nos dá a felicidade de ouvi-la. Também gosta de pintar e com a modinha dos livros de colorir, ela descobriu um talento que não sabia possuir. Seus desenhos ficam lindos e muito coloridos! Essa veia artística nos
permeia.
Porém, a
vida também tem seus sofrimentos e a doença física e mental muitas vezes traz
com ela dores emocionais que não temos ideia de que estão lá, até que não tem
como suprimir, elas extravasam. E foi assim com minha avó. Desde que adoeceu uma
parte dela ainda adormecida e desconhecida por nós, e talvez até por ela
própria, emergiu com grande força. Seu histórico de perdas norteou e norteia sua
existência e é uma das principais temáticas de seus delírios. Como uma pessoa
positiva, não deixava isso transparecer e sempre nos pareceu uma pessoa muito
bem resolvida, com seus conflitos internos vivenciados e curados, entretanto
com o surgimento da doença, vimos que não foi bem assim. Muitas dores ficam
enclausuradas dentro de nós até que uma força maior que nós mesmos traz a tona
toda o sofrimento de uma vida cheia de falsas resoluções, falsos fechamentos,
lutos não vivenciados em sua devida intensidade para que fossem completamente
sarados ou ressignificados.
Com a perda
da lucidez e consciência dos fatos, as emoções que os acompanham se
desconectam, ficam soltas como energia latente, prontas pra serem vividas e significadas. Porém há a perda do significado inicial. Essa energia livre precisa achar uma
nova forma de extravasar, de modo que surjam novos sentidos pra esses
fatos que são vivenciados na fantasia, distorcendo a realidade. As emoções são
experienciadas com outro sentido e outra interpretação, sem o controle do Ego, e ficam imersas no nosso Inconsciente, ficando quase impossível
serem controladas, logo não há limites pra imaginação.
Assim a
mente dela vagueia juntando fatos reais com emoções sem conexões com a
realidade, e o sofrimento aparece. A perda precoce de seus pais e seu marido antes
do que imaginava é vivenciada como abandono. Seu desejo é voltar ao passado,
onde o sentimento de plenitude que sentia pelo amor incondicional que teve
deles e por eles a preenchia e dava a ela segurança, já que sem eles, sua vida é
incompleta em seu universo particular formado pela doença. Ela sente como se
eles a tivessem abandonado, como se eles tivessem a deixado e ido embora, sem
explicações e sem motivos e não entende mais a morte deles, não consegue fechar
esses lutos, porque antes não tinham sido trabalhados devidamente e sim, deixados
de lado pelo ideal da supermãe e mulher que tinha que dar conta de tudo e de
todos. Sua fortaleza de antes se tornou a fraqueza de hoje. Uma frase que ela
sempre fala e que expressa essa dor de perda: “O tempo passa como o vento e é difícil voltar atrás como é difícil
voltar quem já morreu”.
A pergunta
que ecoou durante duas semanas na minha mente foi: “Ok, eu compreendi a
experiência de vida dela, o significado do seu sofrimento e o quanto ele ficou
visível com a doença, mas e agora? O que podemos fazer hoje?”. Conversando com
amigos psicólogos tive a compreensão de que hoje o idoso só precisa de afeto, amor,
carinho, muitos beijos e abraços, precisa se sentir vivo, amado, afirmado em
sua trajetória de vida, precisa sentir que sua família está presente,
principalmente fisicamente e com palavras que verbalizem sua importância na
vida de cada um. Ele precisa sentir que sua família não a abandonará. Como um
bebezinho que necessita de sua mãe como uma necessidade primária de afeto e
cuidado, assim o idoso necessita de seus familiares. A vida se inicia e termina
da mesma forma, pelo amor e para o amor.
Jovens e
adultos, também aprendi outra coisa com essa experiência: resolvam seus
conflitos internos, os aceitem, os integrem a sua vivência presente, busquem a
intensidade de suas emoções para fechar seus conflitos de forma saudável e
satisfatória, e não deixem chegar a fase idosa sem ter trabalhado suas questões. A vida sempre cobra da gente. Uma hora a dor bate na porta buscando ser
compreendida. Não deixe pra depois, resolva hoje enquanto existe lucidez. A
vida é breve!
Gratidão por
essa experiência. Que aprendizado!
Maíra de Melo Sathler
CRP: 05/48726
*Eu no colo da minha vó, meu irmão e meu avô.

5 comentários:
Ótimo texto ;)
Que Deus continue abençoando.
Sucesso!
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