quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Serei Breve... ou não!


Lidar com a brevidade do tempo não é muito natural para os jovens. Quando um jovem se depara com a questão da morte ou de como a vida é breve e passageira, normalmente ele entra em desespero. Afinal, pensar no término da vida quando se está no início dela não é uma tarefa fácil.

Nesse último mês comecei um trabalho como Cuidadora de Idosos, até por isso que dei uma sumida daqui. Não por falta de assunto, pois minha mente está fervilhando de ideias, mas por falta de tempo mesmo. Que interessante e rica é essa função! Estou aprendendo muito como pessoa, psicóloga e ser humano. O mais legal é que iniciei esse tipo de trabalho com minha própria avó, uma oportunidade única de cuidar dela e de conhecer de perto uma história de vida que não conhecia com tantos detalhes e significados.

Pra vocês se situarem um pouco em relação à vida da minha avozinha linda, ela tem 86 anos, 5 filhos e 3 netos e é natural de uma cidadezinha do interior de Alagoas chamada Rio Largo. Foi para Recife para trabalhar em um hospital como enfermeira parteira, conheceu meu avô e se casou. Se mudou para o Rio de Janeiro e foi muito feliz em seu casamento e com seus filhos, sempre muito amada, alegre, de bem com a vida, falante, educada, espiritualizada e ativa. Sua casa vivia e vive cheia de gente, constantemente sendo visitada pela família. Nunca faltou amor e companheirismo entre nós. Somos uma típica família de descendência italiana, gostamos de estar juntos, somos alegres, festeiros, falamos alto, nos amamos e expressamos nosso amor de uma forma muito afetiva e intensa! Rs Em nossas reuniões constantemente um ou outro pede a palavra e fala abertamente sobre seus sentimentos, suas lutas, vitórias e oramos uns pelos outros. Coisa linda, minha família é meu tesouro e orgulho maior.

Minha avó Zeza sofreu grandes perdas na vida, a primeira aos oito anos quando perdeu seu pai e mãe e depois quando adulta perdeu seu marido, meu avô, há 20 anos. Ela tem problemas de pulmão desde que se entende por gente e eventualmente piora da bronquite asmática e fica internada. Alguns anos atrás ela sofreu pequenos AVC’s e falta de ar no cérebro, o que ocasionou um quadro de demência. Hoje não tem plena consciência de si e dos eventos externos, sofre de alucinações e delírios, precisa de cuidados constantes e não sai muito de casa. Tem perda de memória recente, porém a maioria das memórias de longo prazo estão preservadas.

Passar um tempo com um idoso com tamanha vitalidade é se inundar de histórias e recordações do passado que se tornam tão reais com a doença que muitas vezes são misturadas, fazendo parte de delírios que unem realidade e fantasia. Porém, em seus melhores dias, ao me sentar no sofá com ela, pude apreciar tanta sabedoria e beleza em seus relatos. Uma vida dedicada ao amor. Primeiro aos mais pobres quando trabalhava no hospital e ajudava os que não tinham condições, e posteriormente uma vida de entrega e sacrifícios pela sua família, criando seus cinco filhos com muita dificuldade até meu avô se estabilizar e alcançar sucesso como músico contrabaixista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Ele tocou com os melhores, como Baden Powell, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Elis Regina, Frank Sinatra e outros, no Brasil e no exterior. Meu avô foi um grande músico e homem, valente e talentoso.

Como uma boa nordestina que é, também possui características de personalidade forte. É exigente com sua casa, gosta de tudo arrumado, limpo, com flores nas mesas, reclama se algo não está do jeito que ela quer, é pragmática com seus horários de alimentação e se vê algum comportamento que lhe parece ruim, chama a atenção. Sempre zelosa e cuidadosa com seu lar. Gosta de claridade, adora descer no play pra pegar um sol nos dias quentes, odeia o inverno, pois o frio e a umidade muitas vezes a deixa doentinha.  Reconhece sempre a presença de Deus na natureza - já a presenciei na janela falando sobre flores, pássaros, árvores, sol, do quanto a vida é linda e deve ser vivida apesar dos sofrimentos. É incrível que mesmo em seus delírios ela consiga fazer e viver poesia! Gosta de cantar e volta e meia nos dá a felicidade de ouvi-la. Também gosta de pintar e com a modinha dos livros de colorir, ela descobriu um talento que não sabia possuir. Seus desenhos ficam lindos e muito coloridos! Essa veia artística nos permeia.

Porém, a vida também tem seus sofrimentos e a doença física e mental muitas vezes traz com ela dores emocionais que não temos ideia de que estão lá, até que não tem como suprimir, elas extravasam. E foi assim com minha avó. Desde que adoeceu uma parte dela ainda adormecida e desconhecida por nós, e talvez até por ela própria, emergiu com grande força. Seu histórico de perdas norteou e norteia sua existência e é uma das principais temáticas de seus delírios. Como uma pessoa positiva, não deixava isso transparecer e sempre nos pareceu uma pessoa muito bem resolvida, com seus conflitos internos vivenciados e curados, entretanto com o surgimento da doença, vimos que não foi bem assim. Muitas dores ficam enclausuradas dentro de nós até que uma força maior que nós mesmos traz a tona toda o sofrimento de uma vida cheia de falsas resoluções, falsos fechamentos, lutos não vivenciados em sua devida intensidade para que fossem completamente sarados ou ressignificados.

Com a perda da lucidez e consciência dos fatos, as emoções que os acompanham se desconectam, ficam soltas como energia latente, prontas pra serem vividas e significadas. Porém há a perda do significado inicial. Essa energia livre precisa achar uma nova forma de extravasar, de modo que surjam novos sentidos pra esses fatos que são vivenciados na fantasia, distorcendo a realidade. As emoções são experienciadas com outro sentido e outra interpretação, sem o controle do Ego, e ficam imersas no nosso Inconsciente, ficando quase impossível serem controladas, logo não há limites pra imaginação.

Assim a mente dela vagueia juntando fatos reais com emoções sem conexões com a realidade, e o sofrimento aparece. A perda precoce de seus pais e seu marido antes do que imaginava é vivenciada como abandono. Seu desejo é voltar ao passado, onde o sentimento de plenitude que sentia pelo amor incondicional que teve deles e por eles a preenchia e dava a ela segurança, já que sem eles, sua vida é incompleta em seu universo particular formado pela doença. Ela sente como se eles a tivessem abandonado, como se eles tivessem a deixado e ido embora, sem explicações e sem motivos e não entende mais a morte deles, não consegue fechar esses lutos, porque antes não tinham sido trabalhados devidamente e sim, deixados de lado pelo ideal da supermãe e mulher que tinha que dar conta de tudo e de todos. Sua fortaleza de antes se tornou a fraqueza de hoje. Uma frase que ela sempre fala e que expressa essa dor de perda: “O tempo passa como o vento e é difícil voltar atrás como é difícil voltar quem já morreu”.

A pergunta que ecoou durante duas semanas na minha mente foi: “Ok, eu compreendi a experiência de vida dela, o significado do seu sofrimento e o quanto ele ficou visível com a doença, mas e agora? O que podemos fazer hoje?”. Conversando com amigos psicólogos tive a compreensão de que hoje o idoso só precisa de afeto, amor, carinho, muitos beijos e abraços, precisa se sentir vivo, amado, afirmado em sua trajetória de vida, precisa sentir que sua família está presente, principalmente fisicamente e com palavras que verbalizem sua importância na vida de cada um. Ele precisa sentir que sua família não a abandonará. Como um bebezinho que necessita de sua mãe como uma necessidade primária de afeto e cuidado, assim o idoso necessita de seus familiares. A vida se inicia e termina da mesma forma, pelo amor e para o amor. 

Jovens e adultos, também aprendi outra coisa com essa experiência: resolvam seus conflitos internos, os aceitem, os integrem a sua vivência presente, busquem a intensidade de suas emoções para fechar seus conflitos de forma saudável e satisfatória, e não deixem chegar a fase idosa sem ter trabalhado suas questões. A vida sempre cobra da gente. Uma hora a dor bate na porta buscando ser compreendida. Não deixe pra depois, resolva hoje enquanto existe lucidez. A vida é breve!

Gratidão por essa experiência. Que aprendizado!


Maíra de Melo Sathler
CRP: 05/48726


                           *Eu no colo da minha vó, meu irmão e meu avô.

5 comentários:

Unknown disse...

Ótimo texto ;)
Que Deus continue abençoando.
Sucesso!

Priscila disse...

Testando comentário via web!

Priscila disse...

Testando via Android!

Priscila disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Priscila disse...
Este comentário foi removido pelo autor.